Assim que chegamos em Lisboa, perguntamos para o taxista: onde um lisboeta vê um fado?
Empolgado, o taxista falou: Tens de ir a um fado vadio.
Mas como é? Onde tem? Onde é bom? Existem tantas casas de fado em Lisboa.
Ele respondeu: em qualquer lugar.
Isso ficou na minha cabeça. Procurei na internet e o que sempre aparecia eram casas de fado mais tradicionais, que recebem os turistas. Isso eu não queria. Não é preconceito, não. É que eu queria outra coisa, queria me afundar em algo que fosse mais próximo da raiz. Mas onde conseguir uma indicação de um lugar como esse? Perguntando para alguns portugueses, percebi que o fado não está em todos e que muitos consideram fado “tudo igual”. E me surpreendeu uma senhora que mora na Alfama (bairro tradicional de casas de fado) nem saber o que era o Museu do Fado.
Não sou Suíça, venho do Brasil. Para mim, se fazia necessario ver um fado de português para português. Tentar estar mais próxima daqueles que outrora atravessaram o Atlântico em direção ao Brasil.
Digo desde já: fado, seja vadio ou não, começa tarde.
Ficamos muito tempo da nossa estadia tentando conciliar a ida ao fado com a vida da nossa filhota. Queríamos ir juntos ao fado.
Outro ponto era que não queríamos arriscar, queríamos uma indicação.

Entre dúvidas e medo de errar, passaram-se 8 meses, mas com o anúncio do fado como patrimônio imaterial da humanidade pela UNESCO, me empolguei e decidi arriscar.
Fui levada por três amigas (que foram por indicação de uma outra) a um lugar que beira o cenário de algum filme entre Almodovar e Lynch. Saímos do centro em direção a Alcântara/ Prazeres.
Chegamos a uma praça onde só se via uma casa, com uma placa iluminada, onde se lia Casa da Mariquinhas. Era lá o fado, era lá o tal “fado vadio” que eu ia conhecer.
Entramos. Pequeno… seis mesas apertadas, muitos quadrinhos de fotos nas paredes… falta de espaço… fotos de gente do fado, como se todos devessem caber ali dentro. O ambiente era claro e agradável, mas eu ainda não sabia onde tudo iria acabar.
Começamos a jantar às 22hs. Pão, chouriço, manteiga, sopinha e…um prato principal, que era igual para todos: arroz (delicioso), saladinha e um bife de carne de porco, (gosto, mas não consigo digerir, passo mal mesmo) e, para minha supresa, ouvi que iriam tentar resolver o meu problema. Fiquei surpresa porque era o menu do dia! Logo após alguns minutos, subiu o cheiro de bolinhos de bacalhau. Comi… tudo perfeito. Comida caseira e boa. Para fechar, um creme de manga.
23:44 – Os músicos chegam e se sentam quase na nossa mesa. Era reservado para eles um espaço pequeno, em um canto bem ao nosso lado.
A guitarra de fado é tão linda, na sua forma abaloada… Ao lado, a viola portuguesa (em muitas formações vem também o contra-baixo). E os primeiros acordes foram tocados.
Aos poucos, as luzes vão dando lugar às velas e as pessoas se amontoam no balcão. É possível não jantar e ficar em pé, desde que se consuma no mínimo 15€.
A luz da vela projeta a sombra dos músicos na parede. Olho para traz e vejo um lugar cheio de olhos e ouvidos atentos para ver qual vai ser o fado escolhido pelo(a) fadista.
No fado vadio, quem quiser, levanta e canta. Mas não pense que é em ritmo de karaokê. Há um certo respeito, todos conhecem quase todos os fados e ninguém levanta para cantar sem saber o que isso representa alí. Nessa casa, pelo menos, o nível dos cantores é altíssimo.
O fadista levanta, vai aos músicos e escolhe o fado. Eles tocam e ele começa a cantar. Normalmente canta três fados. Todos param de falar e pedem silêncio. Então, a noite realmente começa.
Foram 5 fadistas, um deles com direito a repeteco. Confesso que quando o terceiro cantou, as lágrimas me correram aos olhos. E fiquei na cabeça com uma melodia que gostaria muito de saber de que música é.
Fiquei inebriada pelo clima… e pelo vinho. Para terminar, ao sair da casinha, me deparei com uma garoa, que na luz amarela do candeeiro, criava riscos finos e delicados (que caiam na diagonal). Tive vontade de voltar a pé, na calada da noite, na chuva, mas saindo às 2 e meia da madrugada, provavelmente chegaria em casa junto com a luz do dia.
Era o que eu esperava da minha primeira noite de fado: um “Q” de mágico. E mágico foi!
Um pouco da história do lugar…
A casa da Mariquinhas pertence à fadista Maria João Quadros.
Ela própria cuida de tudo. Da comida, do andamento do jantar… e finaliza a noite cantando alguns fados. Fiquei muito emocionada de ver a senhora que estava cuidando da comida se transformar na fadista de uma hora para outra. Linda, com uma flor negra amarrada ao pescoso, um xale sobre os ombros… Que presença de cena. E com que dignidade fechou a noite.
Uma mulher forte e receptiva, que parece viver de sua arte e pela arte. BRAVO!
Serviço: A Casa da Mariquinhas tem uma página no Facebook. Lá é possível verificar a programação.
Os dias com fado são 5ª e 6ª feira. Para jantar, é necessário fazer reserva pelo telefone (+ 351) 917171236 / 913801620 – Local: Praça da Armada, nº 17 – Alcântara – Lisboa – Portugal
No dia em que eu fui, foi assim:
Em ordem de entrada, foram os seguintes fadistas: Ricardo Nonagi, Margarida Soteiro, Pedro Moutinho, Rita Sobral, Antonio Vasco Morais e Maria João Quadros. Os músicos: Dinis Lavos (Guitarra Portuguesa), Armando Figueiredo (Viola de Fado).